O artista formador: Paulo Pasta Paulo Pasta, artista e professor no Sesc Pompeia e Instituto Tomie Ohtake (Foto: Paulo D'Alessandro)

O artista formador: Paulo Pasta

Em série de depoimentos, grandes nomes da cena brasileira contam como transmitem seu amor e apreço pela arte às novas gerações

 Por Luciana Pareja Norbiato, Felipe Stoffa e Paulo Pasta

 

Ensinar é um processo múltiplo. Nenhum método de ensino dá conta sozinho de fixar as bases de atuação de seus agentes. Mesmo nas ciências exatas, a maneira como o professor lida com sua disciplina influencia diretamente os resultados e o interesse dos alunos. No ensino de artes visuais, essa fluidez epistemológica é potencializada. O ato do ensino e da aprendizagem pode começar em instituições formais, como escolas e faculdades, e ultrapassar a sala de aula para acontecer em conversas, projetos e até na rua. A produção de certos artistas não seria a mesma sem o ato generoso de compartilhar conhecimento e experiência com as novas gerações. Saiba o que Paulo Pasta, artista e professor no Sesc Pompeia e Instituto Tomie Ohtake, pensa sobre a dimensão formativa da arte:

“O que tenho a ensinar é, principalmente, a valorização da experiência”
Quando comecei a dar aulas de arte, não possuía um método, um programa a partir do qual pudesse me orientar. Fui aprendendo com a prática. Aprendi o que ensinava, se posso dizer assim. E isso me parece, agora, a melhor forma de aprendizado. E esse sistema talvez seja a parte essencial do exercício da própria pintura: aprender com a experiência, com a prática do fazer.

Posso dizer, então, que o que tenho a ensinar é, principalmente, essa valorização da experiência. Nesse sentido me coloco (e me sinto) muito mais um interlocutor do que professor. Procuro entender as reais motivações e origens dos trabalhos e responder a elas, sem generalizações ou ideologias.

Gosto também de pensar – a exemplo da declaração de Sean Scully – que procuro manter e preservar um espaço para o exercício continuado da pintura, quando tudo parece cooperar para que isso não ocorra.

O artista formador: Sandra Cinto e Albano Afonso Workshop de Sandra Cinto (Foto: Ding Musa)

O artista formador: Sandra Cinto e Albano Afonso

Em série de depoimentos, grandes nomes da cena brasileira contam como transmitem seu amor e apreço pela arte às novas gerações

Por Luciana Pareja Norbiato, Felipe Stoffa, Sandra Cinto e Albano Afonso

 

Ensinar é um processo múltiplo. Nenhum método de ensino dá conta sozinho de fixar as bases de atuação de seus agentes. Mesmo nas ciências exatas, a maneira como o professor lida com sua disciplina influencia diretamente os resultados e o interesse dos alunos. No ensino de artes visuais, essa fluidez epistemológica é potencializada. O ato do ensino e da aprendizagem pode começar em instituições formais, como escolas e faculdades, e ultrapassar a sala de aula para acontecer em conversas, projetos e até na rua. A produção de certos artistas não seria a mesma sem o ato generoso de compartilhar conhecimento e experiência com as novas gerações. Saiba o que Sandra Cinto e Albano Afonso, artistas e organizadores do Ateliê Fidalga (SP), pensam sobre a dimensão formativa da arte:

“A educação se dá em qualquer espaço de convívio social”
Há algum tempo estamos tentando mudar a ideia do Ateliê Fidalga, enquanto um lugar parecido com uma escola ou local onde se oferece algum tipo de curso ou orientação. Faz tempo que não temos mais “alunos”. Refletimos muito sobre as práticas de educação em arte e o nosso trabalho foi ganhando outra dimensão. Partindo da ideia de que a educação se dá em qualquer espaço de convívio social, Albano e eu percebemos que o nosso trabalho no Ateliê Fidalga acontece muito mais como mediadores das discussões e propositores dos encontros entre os artistas, para que sejam feitas trocas.

O conhecimento é compartilhado de uma maneira horizontal, entre todos. Todas as áreas do conhecimento são bem-vindas e todos os artistas têm algo para dividir, aprender e trocar com o outro em termos de experiências. Também estamos bastante focados no Projeto Fidalga, um desdobramento do Ateliê Fidalga, localizado no nosso antigo ateliê. Nesse local funcionam cinco ateliês de artistas, um ateliê que é uma bolsa de incentivo para artistas sem espaço próprio (Bolsa Estúdio Fidalga), um programa sem fins lucrativos de residência (Residência Paulo Reis) e uma sala para exposições experimentais realizadas pelos artistas e curadores residentes, e artistas jovens ou em meio de trajetória que tenham um projeto para desenvolver e necessitam de espaço (Sala Projeto Fidalga). Nesse caso, a educação como ação transformadora e geradora de conhecimento acontece pela prática e pelas trocas no local: conversas organizadas durante a exposição, intercâmbios com universidades (Musashino e Aomori Art Center, no Japão, e Instituto de Geociências da USP, entre outros) e incentivo a publicações para multiplicar o conhecimento (desde o ano passado, as nossas publicações, além de impressas, são também virtuais, para que as pessoas possam baixá-las e terem acesso à pesquisa) e nos desdobramentos dessa experiência, a ressonância. Um exemplo é Renata Cruz, artista do grupo de estudos que está neste momento no Japão. Ela participa do nosso programa de intercâmbio com o Aomori Art Centre. A ideia de compartilhar o conhecimento vai se expandindo como uma hera.

Outra pedagogia Encontro do grupo de acompanhamento crítico de pintura, coordenado por Regina Parra e Rodolpho Parigi

Outra pedagogia

Cada vez mais, artistas trabalham em paralelo com outras áreas, como a educação

Por Luana Fortes

 

Parece que já se foram os tempos em que o trabalho do artista era restrito à sua prática. Atualmente, é bastante comum encontrarmos combinações entre áreas que antes pareciam distantes umas das outras. Como conceituou Ricardo Basbaum, é a hora do artista-etc, aquele que além de se dedicar ao ser artista, também questiona a natureza e função de seu papel como tal. Pensando nisso, uma possível, e bastante comum, ligação é o artista-professor.

A grande maioria das universidades brasileiras que oferecem cursos de artes contam com artistas-professores como docentes. Só em São Paulo, para dar uma ideia, pode-se citar muitos nomes, como Dora Longo Bahia, Ana Maria Tavares ou Marco Gianotti, na ECA-USP; Thiago Honório, Regina Parra ou Lucas Bambozzi, na FAAP; Sérgio Romagnolo ou José Spaniol, na UNESP. Pensando nisso, aquela leviana percepção de que os profissionais atuantes na academia não conseguiram espaço no mercado trata-se de um grande engano.

Inclusive, existe, nos Estados Unidos, uma associação especialmente dedicada a essa união professor-artista, a ATA – Association of Teaching Artists. Desde 1998, a organização funciona para apoiar profissionais nessas áreas e inclui também o teatro, a literatura, música, entre outras.

Com tudo isso em vista, vale dizer que as confluências entre a arte e a educação não tendem a cessar. Assim, além do artista-formador, que vamos abordando com uma série de depoimentos, iniciados pelo da artista Regina Silveira, o artista-professor vem, cada vez mais, conquistando espaço no sistema da arte.

O artista formador: Regina Silveira Regina Silveira exercita sua interação com públicos anônimos em trabalhos de intervenção urbana como a calçada em frente à Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo (Foto: Paulo D'Alessandro)

O artista formador: Regina Silveira

Em série de depoimentos, grandes nomes da cena brasileira contam como transmitem seu amor e apreço pela arte às novas gerações

Por Luciana Pareja Norbiato, Felipe Stoffa e Regina Silveira

 

Ensinar é um processo múltiplo. Nenhum método de ensino dá conta sozinho de fixar as bases de atuação de seus agentes. Mesmo nas ciências exatas, a maneira como o professor lida com sua disciplina influencia diretamente os resultados e o interesse dos alunos. No ensino de artes visuais, essa fluidez epistemológica é potencializada. O ato do ensino e da aprendizagem pode começar em instituições formais, como escolas e faculdades, e ultrapassar a sala de aula para acontecer em conversas, projetos e até na rua. A produção de certos artistas não seria a mesma sem o ato generoso de compartilhar conhecimento e experiência com as novas gerações. Saiba o que Regina Silveira pensa sobre a dimensão formativa da arte:

“Ensinar arte em profundidade é orientar na busca da expressão poética própria”
Ao longo do meu percurso, sempre foi da maior importância a dimensão formativa da arte – aquela que vem embutida na sua capacidade de ser e de proporcionar um conhecimento muito particular do mundo, com o potencial de transformar magicamente o que entendemos como real e nossas próprias experiências de vida. Desde os anos 1960, estive constantemente interessada nessa dimensão e muito envolvida com atividades educativas diversas, tanto na esfera da produção/fabricação da linguagem – a do ensino da arte, onde literalmente “pendurei” algumas décadas da minha vida profissional, quanto na esfera da recepção da arte – a da sua interpretação, seus efeitos e usos, por diversos públicos.

Nessa última esfera incluo não apenas minha prática recorrente de planejar programas educativos organizados especificamente para exposições realizadas no Brasil e no exterior, geralmente em parcerias muito produtivas, como também algumas formas de arte pública que venho desenvolvendo em anos recentes, especialmente as intervenções diretas no tecido urbano, fora dos espaços instituídos da arte. Por seu grau muito ampliado de interação com públicos anônimos, as intervenções urbanas podem funcionar como assaltos à percepção comum, e se mostram capazes de modificar por muito tempo a forma de ser dos lugares ocupados.

Quanto à formação do artista, para mim, ensinar arte em profundidade é orientar na busca da expressão poética própria e é estar na do outro, para encaminhá-lo nessa descoberta, muito mais que instrumentar para o manejo de materiais e técnicas particulares. A tarefa do mestre junto ao jovem artista é ajudá-lo a dar forma e concreção às suas perguntas e formulações, dentro de uma intencionalidade que ainda é vaga ou está em construção, para que encontre aquilo que quer dizer e os modos de operar para chegar lá, seja qual for o caminho escolhido. Para o mestre, o mais importante nessa relação é a troca, pois ela é a sua melhor ponte e vínculo com as próximas gerações e novos quadros de ideias.