Processos transversais Educadores diante da instalação Fragments de Ibrahim Mahama na exposição Ex Africa (Foto: Programa CCBB Educativo)

Processos transversais

Nova abordagem do programa educativo do CCBB entremeia processos pedagógicos, curatoriais e artísticos

Luana Fortes

Este ano foi implementado novo programa educativo, concebido pelo grupo JA.CA – Centro de Arte e Tecnologia, nas unidades do Centro Cultural Banco do Brasil. O projeto tem como coordenadores Mateus Mesquisa em Belo Horizonte, Pablo Lafuente no Rio de Janeiro, Yana Tamayo em Brasília e Márcio Harum, membro do júri de seleção do Prêmio seLecT de Arte e Educação, em São Paulo.

O principal valor considerado para o desenvolvimento da nova abordagem foi a transversalidade dos processos pedagógicos, curatoriais e artísticos. “O Programa CCBB Educativo – Arte & Educação desenvolve ações que estimulam a experiência, a criação, a investigação e a reflexão”, conta Harum à seLecT. Cada atividade é pensada de acordo com as respectivas agendas dos CCBBs e enquadra-se em um dos quatro principais eixos do programa: Transbordar, Outros Saberes, Processos Compartilhados e Acessibilidade e Inclusão.

Transbordar busca o diálogo entre os educadores do CCBB e a comunidade escolar. As atividades do eixo incluem visitas mediadas a exposições e visitas patrimoniais, que percorrem o edifício sede de cada CCBB abordando sua história e arquitetura. Também parte desse eixo são duas atividades destinadas a professores e educadores. O Curso Transversalidade aborda temas transversais entre arte e educação e a Semana do Educador, que acontece após a abertura de exposição, oferece visitas mediadas aos professores e os informa sobre a agenda paralela a cada mostra. Nessas duas atividades acontece um sorteio que na visão de Harum tem contribuído para que a programação do educativo seja inclusiva e acessível para diferentes públicos. No curso ou na semana, os professores representam a instituição onde lecionam e concorrem a um trajeto gratuito até o CCBB, com visita guiada. “O agendamento de ônibus para escolas, ONGs, associações e grupos específicos tem sido uma iniciativa de êxito para a vinda de novos públicos, e com isso os perfis de visitação vêm se ampliando”, diz o coordenador.

Um diferencial do programa é sem dúvida sua plataforma online (www.ccbbeducativo.com). Desenvolvida pelo artista e programador Andrei Thomaz, a plataforma traz a programação completa do educativo, permite o agendamento de visitas e pretende ser um espaço de memória, referência e formação, a partir de um arquivo digital. Mas como o programa acaba de ser implementado, o arquivo apenas mostra espaço para a história do novo educativo começar.

Imaginária, feminista e na Amazônia Detalhe de Instituto Experimental Tropical del Amazonas (2017). A Notebook. de Mariángeles Soto-Díaz (Foto: Cortesia da Artista)

Imaginária, feminista e na Amazônia

Mariángeles Soto-Díaz idealiza escola imaginária Instituto Experimental Tropical del Amazonas, fundada por feministas com base em culturas indígenas

Luana Fortes

Diante da instalação Instituto Experimental Tropical del Amazonas (2018), questiona-se sobre a existência de uma escola de artes na Floresta Amazônica entre os anos 1935 e 1942. Ela de fato existiu? Só na cabeça de sua idealizadora, Mariángeles Soto-Díaz. A artista venezuelana exibiu um arquivo detalhado sobre a escola imaginária no Centro de Artes 18th Street, em Santa Monica, California. A exposição aconteceu de fevereiro a maio de 2018.

Com base em conhecimentos e habilidades de etnias indígenas como Ye’kuana e Yanomami, que vivem na fronteira entre o Brasil e a Venezuela, o Instituto Experimental Tropical del Amazonas foi criado por um grupo de artistas feministas. Seu foco era reimaginar modos de viver e fazer arte em consonância com a natureza, dentro dela e até em contraste com ela. Enquanto funcionou, teve visitas de Oswald de Andrade e palestras de Le Corbusier e Sonia Delaunay.

Além de colagens, desenhos, mapas e materiais tropicais como urucum, coco e papeis de fibra feitos à mão, a obra de Soto-Díaz traz um manifesto em que afirma: “Nós esperamos que o espírito desta escola dure mais do que nós (…). Reconhecemos que por definição não existem utopias corporificadas, mas apenas a intenção de viver pela promessa de nos atirar em direção aos poderes metafísicos em circulação que só conseguimos imaginar”.

Em 1942, a escola teve um fim – mesmo que imaginário – partindo da ideia de uma instituição efêmera. Já que seu abrigo era a floresta, seguiu o mesmo caminho de um galho caído que se decompõe sobre o chão molhado. Ao acabar, o Instituto Experimental Tropical del Amazonas remanesce como ruína de um futuro perdido. A ruína de algo que nunca teve corpo, mas existiu.

Vista da instalação Instituto Tropical Experimental del Amazonas (2018), de Mariángeles Soto-Díaz, exibido no Centro de Artes 18th Street (Foto: Gene Ogami, Cortesia 18th Street Arts Center)
Vida que continua

Vida que continua

Contemplado no Rumos Itaú Cultural 2017-2018, Área Criativa – Pinhões, de Bruno Vilela, é a nova fase do projeto vencedor do 1º Prêmio seLecT de Arte e Educação, em 2017

Paula Alzugaray

Área Criativa – Pinhões é um dos 109 projetos contemplados no programa Rumos Itaú Cultural (2017-2018). A proposta de Bruno Vilela é criar uma pesquisa sobre processos construtivos de baixo custo e construir um espaço cultural autogerido pelo grupo de jovens da comunidade quilombola de Pinhões, em Santa Luzia (MG). Os participantes, junto com a equipe do projeto, vão desenvolver a arquitetura, a programação, as regras de funcionamento e as formas de gestão do espaço.

Vilela foi o vencedor do 1º Prêmio seLecT de Arte e Educação na categoria Formador, com o Espaço Cultural Área Criativa, espaço autogerido por jovens e crianças da cidade de Pedra Azul (MG), com atividades e regras de funcionamento pensadas pelos próprios usuários. Após três anos de sua implantação em uma cidade que não dispunha de equipamentos culturais, a Área Criativa continua ativa.
Com ações voltadas a promover discussões sobre arte e direitos humanos, o gestor e produtor cultural Bruno Vilela foi estimulado a retomar a estratégia da Área Criativa em Pinhões, bairro quilombola do município de Santa Luzia (MG). “Programamos realizar dez intervenções do projeto Mídia Tática em diferentes cidades, com grupos de jovens organizados em torno de direitos humanos. Mas os moradores de Pinhões não quiseram só uma intervenção efêmera, e sim criar uma ‘área criativa’, em caráter permanente”, conta Vilela à seLecT.
Como a verba que tinha para uma intervenção não alcançava construir um espaço cultural nos moldes de Pedra Azul, foi criado o Espaço Teto Aberto – literalmente um teto para abarcar encontros e discussões para a afirmação do jovem quilombola. “O Teto é um lugar para a discussão de políticas – do próprio espaço e do município. Se a gente pode criar regras para um espaço, por que não podemos interferir nas regras que o Estado dedica à população?”, diz Vilela.

Da cultura gamer às artes do corpo

Da cultura gamer às artes do corpo

Conheça os dez finalistas do Prêmio seLecT de Arte e Educação, que se destacam pela variedade de linguagens e metodologias pedagógicas que suas propostas trazem

Da Redação

Para a Comissão de Premiação da primeira edição do Prêmio seLecT de Arte e Educação, a tarefa de selecionar dez finalistas dentre 60 pré-selecionados foi produtiva, porém extremamente trabalhosa. O júri, presidido por Giselle Beiguelman e formado por Regina Silveira, Rosa Iavelberg, Cayo Honorato e Thiago Honório, coligiu pelo seu interesse em pesquisar as relações entre arte e educação, a fim de escolher quem apresentará seu trabalho no Seminário de Arte e Educação, que acontece nos dias 3, 4 e 6 de maio, no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo.

A artista Giselle Beiguelman, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e presidente do Júri, destaca, na seleção dos dez finalistas, a variedade de linguagens e metodologias pedagógicas que suas propostas trazem. Elas vão de estratégias que incorporam a cultura gamer e o repertório dos fãs dos alunos a novas abordagens das culturas indígenas na educação artística, para muito além do folclorismo e das datas comemorativas. Há nessa seleção propostas e ações voltadas às artes do corpo, às crianças e aos deficientes visuais.

Há projetos desenvolvidos em pequenas cidades no interior do Brasil de forma independente, dentro de escolas públicas e apresentados na Bienal de São Paulo. O arco territorial e institucional que eles recobrem é bastante múltiplo. É notável também a forte presença do ensino público e de resultados de editais públicos e de pesquisas realizadas nas universidades brasileiras entre os projetos e ações dos finalistas.

“Esse conjunto, bem como sua incontestável qualidade, deveria funcionar como um alerta para nossos atuais governantes”, afirma Giselle Beiguelman. “São o indicador preciso do porquê não se pode simplesmente decretar ‘congelamentos’ da cultura, cortes de seus minguados orçamentos e suspensões sistemáticas das poucas bolsas que existem no Brasil.”

Com o patrocínio do Centro Cultural Banco do Brasil e da Minalba, e apoio da Galeria Almeida & Dale, a iniciativa do Prêmio de Arte e Educação mostrou-se, para todos os membros do júri, fundamental diante de um campo em que os reconhecimentos são tão escassos. “Houve uma confluência de diferentes pontos de vista, para que tivéssemos um olhar que não era parcial. As pessoas, inclusive, abriam mão quando tinham uma posição muito diferente da maioria. Existiu muito respeito à opinião diferente”, diz a pesquisadora Rosa Iavelberg, professora da Graduação e Pós-graduação do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da USP. Dessa maneira, o diálogo entre os membros do júri foi importante não só para a seleção de trabalhos, mas também para a própria aprendizagem entre os colegas. “Aprendi muito com esses parceiros”, completa.

Para Cayo Honorato, professor-adjunto no Departamento de Artes Visuais do Instituto de Artes da UnB, “foi curioso pensar como as categorias, artista e formador, em algum momento se misturam”, assim como também chamou sua atenção uma nova política de autoria por trás dos trabalhos. “Embora eles sejam propostos por um representante, os projetos foram elaborados por coletivos ou em parceria com instituições”, aponta. “O Prêmio ajuda a elaborar como se dão essas relações”, diz.

Questões como essas, relevantes dentro do escopo das duas áreas cobertas pelo Prêmio, serão aprofundadas e debatidas no Seminário de Arte e Educação. No final, em cerimônia de Premiação no sábado 6, os dois vencedores das categorias Formador e Artista serão revelados. Conheça aqui os dez projetos finalistas nas duas categorias.

Categoria FORMADOR

Bruno Vilela de Oliveira (MG), com o Espaço Cultural Área Criativa, construído em Pedra Azul como meio de troca e produção simbólica que fortaleça a identidade e a cultura local, criando outros imaginários sobre o Sertão de Minas.

– Claudio Pereira Bueno (SP), com Intervalo-Escola, plataforma experimental prática e reflexiva que mapeia, desenvolve e experimenta modelos de aprendizagem em/contra/sobre/a partir do campo da arte.

– Graziela Kunsch (SP), com Respostas Inesperadas, pensamento e prática como professora e enquanto responsável pela formação de público no projeto Vila Itororó Canteiro Aberto.

– Jayse Antonio da Silva Ferreira (PE), com Curta este CURTA, produção de filmes com participação de alunos do ensino médio, a partir de seus próprios interesses.

– Lisette Lagnado (RJ), com Curador Visitante, projeto que convida curadores em desenvolvimento para montar exposição no Parque Lage, no Rio de Janeiro, cujo tema é tratado em curso gratuito de dois meses.

Categoria ARTISTA

Annamaria Noêmia Lopes Xavier (SP), com o trabalho A Poética dos Encontros, realizado a partir de encontros com deficientes visuais no Instituto Cegos Padre Chico.

Cristiana Gimenes Parada dos Santos (SP), com Passa Lá em Casa, mostra de teatro em residências na favela Paraisópolis.

Jorge Mascarenhas Menna Barreto (RJ), com RESTAURO – Escultura Ambiental, criação de um sistema articulado a partir de um restaurante-obra na 32a Bienal de São Paulo.

Marcela Rosenburg Figueiredo (MG), representando o coletivo Micrópolis, com #L00KB00K, um conjunto de quatro publicações realizadas com o grupo que ocupa o entorno do MAM-SP.

Sheilla Patrícia Dias de Sousa (PR), representante do coletivo Kókir, com Fome de Mistura, ações colaborativas entre universitários indígenas, estudantes do curso de Artes Visuais da Universidade Estadual de Maringá (PR), a Associação Indigenista de Maringá (Assindi), escolas públicas e privadas, crianças e artesãos indígenas.

Da diversidade às adversidades

Da diversidade às adversidades

Membros do júri falam sobre particularidades das inscrições e chegam a 60 pré-selecionados
Confira a lista!

Paula Alzugaray e Giselle Beiguelman

Entre os mais de 500 inscritos na primeira edição do Prêmio seLecT de Arte e Educação tivemos boas surpresas e a confirmação de tristes realidades.

Entre as boas surpresas destaca-se o arco de abrangência das inscrições tanto do ponto de vista territorial, de Norte a Sul do Brasil, como temático.

Na categoria Artista, o Prêmio atingiu 44 cidades de 21 estados brasileiros. Na categoria Formador, constata-se uma diversidade ainda maior: 104 cidades de 18 estados. Escapando à previsibilidade das capitais e dos grandes centros urbanos, a edição inaugural contou com uma significativa presença de projetos de artistas vindos de cidades como Tangará da Serra (MT); Ipatinga (MG); São Gonçalo (RJ), Vassouras (RJ); Marechal Rondon (PR); Orleans (SC), Criciúma (SC), Itajaí (SC); Cabedelos (PB); Petrolina (PE), Lagoa dos Gatos (PE), Itambé (PE) e Aparecida de Goiania (DF), além de vários projetos do interior do Paraná e Manaus (AM).

Do ponto de vista temático, nota-se uma emergente e bem-vinda presença de projetos desenvolvidos, nos últimos dois anos, a partir da demanda e da necessidade do debate das questões das relações raciais e de gênero, a fim de dar legitimidade às Leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornaram obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena no país.

É notável, também, o crescimento de ações e projetos criados em comunidades e nas periferias, fora dos circuitos tradicionais de arte e das instituições educacionais, que trazem abordagens artísticas inovadoras e outras potências para o campo da educação.

A presença de projetos pedagógicos integradores, relacionando a cidade, o meio ambiente, o patrimônio histórico e cultural e projetos voltados para a integração de minorias e deficientes também foram recorrentes.

Percebe-se, ainda, que o audiovisual e as artes do corpo estão hoje incorporadas às metodologias pedagógicas e difundidas entre escolas municipais e estaduais brasileiras.

A multiplicidade institucional das inscrições é outro ponto a destacar. Na categoria Formador, recebemos projetos provenientes de pequenas escolas municipais do interior do Brasil, de núcleos de pesquisa de importantes universidades do país, como a USP e UFF, e chegando até instituições de arte brasileiras internacionalmente reconhecidas, como o Instituto Inhotim e a Fundação Bienal de São Paulo.

Nas duas categorias, apareceram projetos de diversas escalas, voltadas para a mobilização de comunidades inteiras ou de uma sala de aula. Na sua diversidade, mostrando “muita vontade de conexão”, como aponta o educador Paulo Portella, integrante do júri de seleção.

Chamou a atenção, também, que há uma tendência à formação de redes e de equipes multidisciplinares para projetos colaborativos e de co-autoria, na interseção entre diferentes áreas do saber, fomentando múltiplos pontos de vista.

Entre as citações mais constantes, sobre o trabalho em arte e educação, a abordagem triangular (fazer, ler e contextualizar) de Ana Mae Barbosa e textos do filósofo francês Jacques Rancière são as referências centrais.

Triste realidade

Em muitos casos, o escopo dos projetos evidencia que a arte ainda é vista como forma de diversão ou desenvolvimento de auto-estima.

Salta à vista a coragem e a quantidade de iniciativas pessoais em ambientes de descaso. Elas evidenciam a dimensão de desvalorização da disciplina de artes pelo Estado e a carência de políticas públicas nas áreas de arte e educação.

 

Confira a lista dos proponentes pré-selecionados:

O ARTISTA FORMADOR: ANTONIA PEREZ Antonia Perez e seu trabalho White Fence (Foto: Nancy Bareis)

O ARTISTA FORMADOR: ANTONIA PEREZ

Dando sequência à série de depoimentos publicada na 33ª edição da revista seLecT, a artista americana conta como transmite seu amor e apreço pela arte às novas gerações

Como artista visual, estou ativa em dois mundo que, cada vez mais, se sobrepõe, tanto na realidade, como conceitualmente – o universo do artista como pensador, feitor, apresentador e o universo do artista como professor, facilitador, engajador social. Agora, quando considero minha prática, ela não está limitada a minha vida no ateliê, mas também inclui as maneiras pelas quais eu levo a vida do ateliê para o lado de fora e compartilho com os outros, não apenas com exposições, mas também com a audiência ativa de salas de aula, performances/demonstrações contínuas, trabalhos públicos de arte e workshops. Eu vejo a atividade artística de forma holística e eu penso a arte em si como uma parte integral da vida, sem a qual nós humanos teríamos uma existência estática. Eu vejo o papel do artista como o de alguém cujas responsabilidades incluem usar meios criativos para provocar perguntas e divagações, além de ativar o público, expandindo suas mentes. Eu vejo o artista, seu processo e sua produção como algo que deve estar disponível a todos, não apenas a uma pequena parcela da sociedade que podem arcar com o acesso.

Pela história, artistas foram professores, treinando pessoas mais jovens em suas escolas, filosofias, métodos e técnicas. Esse processo era uma parte integral das suas habilidades para sobreviver financeiramente como artista. O sistema produziu assistentes para criar grandes trabalhos sob o nome de algum nome e muitos deles tornaram-se reconhecidos artistas com méritos próprios. Uma forma desse sistema ainda existe na sociedade contemporânea. Estudantes de arte em programas de mestrado, ou trabalhando em ateliês sob a tutela de artistas consagrados, recebem esse tipo de treinamento e apenas poucos protegidos aprendizes conseguem abrir caminho nesse sistema. No entanto, ele exclui a vasta maioria do público geral de se engajar com a arte.

Desde jovem, cada indivíduo deve ter experiências ativas com arte – vê-la, pensar sobre ela, criá-la e desenvolvê-la. Para fazer isso, ele deve também ter um significativo contato com artistas que também são professores. Esse engajamento com a arte deveria continuar pela vida da pessoa até seus últimos dias. Trata-se de um engajamento íntimo que abre a cabeça de um visitante/participante a pensar crítica e analiticamente; ele libera para processos criativos que convidam à experimentação e exploração e leva a pessoa a entender a trajetória do cânone da arte, suas limitações e preconceitos. Ele convida o visitante/participante a um nível de entendimento da arte que é profundamente mais complexo do que uma simples contemplação do que é bonito ou tecnicamente adepto.

Esse tipo de relação e participação nas artes é para indivíduos que pensam crítica e analiticamente sobre o mundo ao seu redor, entendem que tem escolhas e uma voz, olham além da superfície para significados mais profundos das coisas, estão dispostos a trabalhar para soluções que ultrapassam as simples e óbvias, sentem-se confortáveis ao ouvir ideias dos outros e são verdadeiros apoiadores das artes como uma parte necessária da vida de todos. Engajamento ativo com a arte é para aqueles que não apenas apreciam-na como audiência passiva, mas pessoas que são reais participantes do universo ao redor. Artistas, que compartilham seus processos criativos e facilitam esse tipo de engajamento com crianças, jovens e adultos de todas as idades, são chamados de artistas formadores.

 

*Antonia Perez é artista visual, trabalha com escultura, pintura e trabalhos site-specific a partir da reutilização de materiais coletados ao longo do tempo – antoniaaperezstudio.com

Estrutura tecnológica de pensamento Fenster (Ventana/Window, 2001-2002/2010), de Luis Camnitzer (Foto: Cortesia Alexander Gray Associates, Nova York)

Estrutura tecnológica de pensamento

Curso de pós-graduação da FAAP propõe novos modelos para pensar o ensino

Por Luana Fortes

Como pensar processos de formação em um universo digital? De acordo com a professora e doutora Suzana Torres, não se trata apenas de usar a tecnologia como ferramenta na sala de aula, mas sim de pensar em uma estrutura tecnológica de pensamento. É a partir desse desafio que ela montou, e agora coordena, Docência e Educação na Contemporaneidade, apenas um dos vários novos cursos de pós-graduação que a FAAP passa a oferecer em 2017.

Torres acredita que a formação da grande maioria dos professores não é suficiente para fazer da sala de aula um espaço efetivo de aproximação, troca e construção. Por esse motivo, um curso de especialização mostra-se necessário. Causa estranhamento à professora que algumas práticas de ensino usadas hoje foram construídas quando a sociedade ainda era de tradição e cultura oral. Já se foram os tempos de ba be bi bo bu. Hoje, a cultura é digital. “Pensar o cenário atual é pensar em redes, conexões e imagens. É tirar o foco no ensino e colocá-lo na aprendizagem”, diz a professora à seLecT. Docência e Educação na Contemporaneidade, então, oferece um espaço para a proposição de outros desenhos, pois o atual é resultado de opções históricas que podem ser repensadas. “Às vezes, o professor nem quer ensinar de determinada forma, mas ele ainda não sabe fazer de outra”, pondera.

O curso é encabeçado pela Faculdade de Artes Plásticas da instituição, mas, pensando a educação como multidisciplinar e algo de comprometimento coletivo, não se destina exclusivamente para professores de áreas culturais. Ele traz à tona as possíveis contribuições que a arte pode trazer para a educação diante de uma solicitação de nível bem ampla, destinada a profissionais de diferentes graus de ensino, assim como aqueles que pretendem estar envolvidos com a educação apenas no futuro. Inclusive, esse é o ponto de partida do programa, que se inicia pensando a respeito daquilo que move e orienta os próprios estudantes do curso.

A oportunidade de montar essa pós-graduação também serve como pontapé para novas ações ao redor do mesmo assunto. É o caso da palestra Como se Ensina a Estudar: Uma Tarefa de Toda a Comunidade Escolar, ministrada por uma das professoras que compõe o corpo docente do curso, Walkiria de Oliveira, em 6/3, às 21h30.

O artista formador: Carmela Gross A artista Carmela Gross ao lado da instalação Escada-Escola (Foto: Paulo D'Alessandro)

O artista formador: Carmela Gross

Em série de depoimentos, grandes nomes da cena brasileira contam como transmitem seu amor e apreço pela arte às novas gerações

Por Luciana Pareja Norbiato, Felipe Stoffa e Carmela Gross

 

Ensinar é um processo múltiplo. Nenhum método de ensino dá conta sozinho de fixar as bases de atuação de seus agentes. Mesmo nas ciências exatas, a maneira como o professor lida com sua disciplina influencia diretamente os resultados e o interesse dos alunos. No ensino de artes visuais, essa fluidez epistemológica é potencializada. O ato do ensino e da aprendizagem pode começar em instituições formais, como escolas e faculdades, e ultrapassar a sala de aula para acontecer em conversas, projetos e até na rua. A produção de certos artistas não seria a mesma sem o ato generoso de compartilhar conhecimento e experiência com as novas gerações. Saiba o que Carmela Gross; artista e autora da instalação Escada-Escola, que liga a Chácara Lane (Museu da Cidade) à Escola Municipal Gabriel Prestes, SP; pensa sobre a dimensão formativa da arte:

“Borrar os limites entre o que chamamos arte e aquilo que consideramos ensino”
Minha primeira proposição para o projeto desta exposição foi imaginar uma integração ativa e formal entre o espaço da Chácara Lane e a Escola Municipal Gabriel Prestes, em São Paulo: apagar os limites físicos entre uma e outra, retirar o muro/grade que as separa, integrar atividades e fazer com que a escola e a casa-museu pudessem se coordenar em uma nova unidade espacial e programática. Além de unificar os espaços, minha proposta pretendia borrar os limites entre o que chamamos arte e aquilo que consideramos ensino. Poder recompor a atividade artística como ação lúcida e lúdica, pensar a educação como atividade livre e criadora. Mas essa enorme tarefa não cabia no âmbito da exposição. Então, imaginei um dispositivo simbólico que pudesse significar o salto desejado – uma escada dupla que fizesse a transposição sobre a grade, tornando possível passar da escola para o museu e do museu para a escola. Projetei uma escada metálica de dois lances, com 1,5 metro de altura, 0,60 metro de largura e 4,60 metros de comprimento, com nove degraus de cada lado, articulada por uma pequena plataforma central. Todo o conjunto é pintado de vermelho. O desenho em linhas metálicas vermelhas talvez assinale um caminho.

Incerta reforma Camisa Educação#69 de Beto Shwafaty para galeria A Gentil Carioca (Foto: Pedro Agilson)

Incerta reforma

Mudanças no Ensino Médio geram insegurança a respeito da arte como disciplina obrigatória

 

Por Luana Fortes

 

Em 2016, estudantes da rede pública de ensino ocuparam mais de mil escolas ao redor de todo o País em protesto a certas medidas relacionadas a ensino. Uma delas, a Medida Provisória 746, que traz mudanças no segundo grau, acaba de ter seu texto aprovado pelo plenário do Senado Federal, seguindo para a sanção do presidente Michel Temer, a qual deve ocorrer nos próximos dias.

A carga horária do Ensino Médio passará a caminhar em direção à meta de ampliação para ao menos mil horas anuais em cinco anos e professores de notório saber, aqueles sem formação específica na área de atuação, poderão lecionar, mas apenas em ensino técnico e profissional.

Fora isso, a flexibilidade do currículo é uma das maiores mudanças propostas pela medida. Ela indica que 60% da grade será composta por disciplinas obrigatórias instituídas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e 40% serão destinadas para os itinerários formativos, que se tratam de cinco áreas de estudo para aprofundamento. As escolas devem oferecer ao menos uma, sendo elas linguagens e suas tecnologias, matemática e suas tecnologias, ciências da natureza e suas tecnologias, ciências humanas e sociais aplicadas e formação técnica e profissional.

No entanto, algo que ainda parece instável é a situação das disciplinas de arte, educação física, sociologia e filosofia na BNCC, que deverá ser definida até o fim do ano. Por ora, as únicas matérias obrigatórias são matemática, português e inglês. Vale apenas dizer que o texto original da MP 746 não incluía a obrigatoriedade dessas disciplinas, mas uma emenda constitucional restabeleceu a norma quando o documento passou pela Câmara. O que se pode esperar para 2018, ou até 2019, é ainda um pouco incerto.

 

O artista formador: Danillo Barata Danillo Barata, videoartista e professor dos cursos de Cinema e Artes Visuais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB (Foto: Sora Maia)

O artista formador: Danillo Barata

Em série de depoimentos, grandes nomes da cena brasileira contam como transmitem seu amor e apreço pela arte às novas gerações

Por Luciana Pareja Norbiato, Felipe Stoffa e Danillo Barata

Ensinar é um processo múltiplo. Nenhum método de ensino dá conta sozinho de fixar as bases de atuação de seus agentes. Mesmo nas ciências exatas, a maneira como o professor lida com sua disciplina influencia diretamente os resultados e o interesse dos alunos. No ensino de artes visuais, essa fluidez epistemológica é potencializada. O ato do ensino e da aprendizagem pode começar em instituições formais, como escolas e faculdades, e ultrapassar a sala de aula para acontecer em conversas, projetos e até na rua. A produção de certos artistas não seria a mesma sem o ato generoso de compartilhar conhecimento e experiência com as novas gerações. Saiba o que Danillo Barata, videoartista e professor dos cursos de Cinema e Artes Visuais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), pensa sobre a dimensão formativa da arte:

“Tenho sido, muito mais ao modo de Mário de Andrade, um aprendiz”
Minha experiência de ensino no Recôncavo da Bahia tem me transformado profundamente, pois aqui a troca de saberes e a horizontalidade na prática de formação são vividas cotidianamente no ambiente escolar e fora dele. Um espaço de dialogias, transformações e do mistério.

Os trabalhos artísticos que tenho desenvolvido têm se constituído pela poética do corpo, utilizando como linguagens o vídeo e as videoinstalações. Motivado por essa tendência, busco a ampliação desse conceito e dos meios artísticos de expressão na realização de uma produção na linha de processos criativos.

Em uma avaliação de conceitos ligados às principais teorias e práticas das artes visuais, minha pesquisa constituiu-se de uma produção prática, na qual são utilizadas técnicas de captação e manipulação de imagens, para mostrar o enfrentamento do corpo em relação aos meios contemporâneos de expressão artística.

A relação dialógica estabelecida com o Recôncavo talvez encontre ressonância na frase da canção do santamarense Roberto Mendes e de Capinam na canção Massemba: “Vou aprender a ler para ensinar meus camaradas”. Acredito que, no fim das contas, tenho sido, muito mais ao modo de Mário de Andrade, um aprendiz.