Cayo Honorato

Cayo Honorato

Membro do júri fala sobre o processo de seleção dos 10 finalistas que se apresentarão no Seminário de Arte e Educação

Nos últimos 60 anos, particularmente no campo das artes visuais, podemos notar uma ampliação dos modos de vinculação entre as artes e a educação. Quanto às práticas artísticas, desde o final dos anos 1950 e, mais notadamente, a partir de meados dos anos 2000, diferentes artistas e coletivos passaram a tomar a educação como tema, matéria ou maneira de fazer arte. Do mesmo modo, professores e educadores passaram a não só referenciar as artes em suas disciplinas, como também fazer de suas aulas e cursos experimentos artísticos. Todavia, são práticas que ainda carecem de uma visibilidade adequada, sendo muitas vezes mal compreendidas.

Nesse contexto, o Prêmio é não só um incentivo aos projetos e experiências que favoreçam esse diálogo, como também uma situação em que as modalidades desse diálogo possam ser discutidas. Não se trata de estabelecer classificações para cada uma delas, mas de identificar suas relações a diferentes genealogias, ponderando que elas muitas vezes trabalham a partir de contextos de recepção e circulação distintos. Mas chama a atenção que alguns proponentes pudessem prescindir de uma separação entre as categorias artista e formador. Em todo caso, importa observar de que forma estão combinando uma coisa e outra.

Também chama a atenção que muitas propostas, embora tenham seus representantes individuais, configurem um regime de autoria diverso do que tradicionalmente se observa em relação aos trabalhos de arte. Mais do que indivíduos, grupos ou coletivos, o que temos são projetos que envolvem parcerias e colaborações entre diferentes indivíduos, grupos, coletivos, comunidades, escolas, universidades, museus e instituições culturais, com forte atuação dos públicos e participantes. A forma com que cada uma trabalha uma distribuição de autorias, em relação a uma coletividade de pensamento, também me parece um aspecto a ser considerado.

Outro aspecto diz respeito à forma de enunciação das propostas, que muitas vezes se apresentam como projetos, isto é, sem muito se referirem à experiência mesma de sua circulação, apropriação, realização. Desse modo, fazem prevalecer as causas do projeto (e seus efeitos supostos ou desejados) sobre seus efeitos empíricos, que por vezes se imiscuem no processo, a partir de outras causas, como “efeitos” inesperados. Diferentemente dos trabalhos de arte, cujas significações parecem resguardadas por uma forma que se busca estabilizar, os processos educacionais precisam ser apanhados no modo como, a cada vez, se unem/dividem com aquilo que lhes é heterogêneo; no modo como negociam com as realidades, ou ainda, com o espaço entre representação e presença.

Por sorte, essas e outras questões poderão ser discutidas no seminário, que espero seja uma situação produtiva, mais do que simplesmente competitiva. Os finalistas têm singularidades dificilmente comparáveis. Não será um trabalho simples para o júri.

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