Apresentações, statement do júri e anúncio de vencedores Finalistas do 2º Prêmio seLecT no Seminário de Arte e Educação, realizado no CCBB-DF (Fotos: Guilherme Kardel)

Apresentações, statement do júri e anúncio de vencedores

Abertura do Seminário de Arte e Educação do 2º Prêmio seLecT, com apresentação de Paula Alzugaray, diretora da revista seLecT, na manhã do dia 11/9, no CCBB-DF.

Em abril de 2018, dedicamos uma edição da revista seLecT à discussão sobre a ausência de política cultural no Brasil. Quatro meses depois, estamos diante da destruição do Museu Nacional, que guardava a memória dos muitos povos que constituem o Brasil.

Com esse evento, o que era ausência de políticas culturais e falta de respeito pela história, a cultura e a educação no Brasil, ganha a fisionomia de crime.

Qual a diferença entre assistir aos atentados a monumentos históricos no Oriente Médio pelo Estado Islâmico, ou à destruição das Torres Gêmeas nova-iorquinas pela Al-Quaïda, e a aniquilação de 90% do patrimônio material e imaterial guardado no Museu Nacional?

O destino calamitoso do nosso patrimônio é, sim, comparável a atos de terrorismo na medida em que é resultado da incapacidade de zelo e ao desprezo de seus próprios guardiães. Faço minhas as palavras do historiador da arte Rafael Cardoso no texto “O Brasil na Fogueira”, publicado na semana passada na revistapessoa.com.

“Como coletividade, não soubemos zelar por aquele patrimônio, assim como não atribuímos o devido cuidado a nenhum de nossos preciosos acervos públicos e instituições culturais. Somos uma sociedade que não respeita o berço em que nasceu. Como certos pássaros, emporcalhamos o próprio ninho. Jogamos lixo na rua, esgoto no mar, veneno nos rios. Roubamos monumentos para fundir o bronze e vender por peso. Nomeamos para cargos públicos pessoas que surrupiam o patrimônio da nação”.

Reconhecemos que o destino do Museu Nacional não é um caso isolado. Para citar outros casos emblemáticos, há 40 anos, o acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro foi convertido em pó em um incêndio de proporções similares ao da Quinta da Boa Vista.  Em 2014 foi a vez do Liceu de Artes e Ofícios, de São Paulo, em 2015 do Museu da Língua Portuguesa, e em 2016 da Cinemateca Brasileira.

Mais uma grave evidência de que recursos são invariavelmente retirados da educação e da cultura a fim de maquiar contas que não fecham, desde 2015, dezenas de cursos de ensino superior de arte e design desapareceram sob a lógica de que a oferta educacional é um produto e o público, consumidor.

Paula Alzugaray abre trabalhos do Seminário de Arte e Educação do 2º Prêmio seLecT

Em artigo publicado na edição Política Cultural da seLecT, a professora e pesquisadora Mirtes Marins de Oliveira elucida o desmonte sistemático da educação artística no Brasil, recorrendo a informações fornecidas pela Associação Nacional dos Pesquisadores em Artes Plásticas (ANPAP), que fornece os dados consolidados do Cadastro do e-MEC de Instituições e Cursos de Educação Superior para a área de artes visuais. Em 2015, o documento aponta para a descontinuidade ou fechamento total de cerca de 28% dos cursos de bacharelado e 20% das licenciaturas – presenciais e à distância – em Artes Visuais no Brasil. No mesmo documento referente ao ano de 2016, dos 367 cursos oferecidos no segmento Artes Visuais, 17 estavam em processo de descredenciamento solicitado pelas próprias instituições.

A esse quadro, soma-se a nova versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino médio no que diz respeito ao ensino de Artes e Humanidades, que prevê que apenas as áreas de linguagens e matemática devem ser ofertadas de forma obrigatória nos três anos do ensino médio.

O que se pode concluir de tudo isso?

Que o incêndio do Museu Nacional não é um acidente. É um desastre cultural que responde a duzentos anos de descaso e desmandos.

“O incêndio do Museu Nacional”, continua Rafael Cardoso, “além de tragédia, foi crime. Um crime que condena a sociedade brasileira quase inteira, com exceção dos poucos e bons que lutam bravamente para manter vivas a memória e a cultura contra o descaso da maioria esmagadora.”

Nesta segunda edição do Prêmio seLecT de Arte e Educação, homenageamos estes não tão poucos, mas bravos, artistas e formadores que trabalham pela formação dos brasileiros a partir da integração entre a arte e a educação.

Recebemos 250 projetos de 17 estados brasileiros.

Os seis finalistas, presentes nesta terceira e última fase de julgamento, destacam em suas propostas, segundo aponta Giselle Beiguelman, presidente do júri, novas abordagens das questões de gênero e da cultura indígena nas escolas e no cotidiano. Apontam para a urgência de pensar as relações com o meio ambiente, privilegiando um olhar para a diversidade e a experiência do compartilhamento, e propõem interlocuções mais fluidas entre o público e as instituições, alterando as formas de circulação e experimentação dos espaços.

Ressalto que os seis projetos apresentados hoje no Seminário de Arte e Educação notabilizam-se por sua capacidade de transcender os modelos de educação formal, abrindo possibilidades para acreditarmos na construção de um Brasil possível.

Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília

 

Nesta manhã, teremos três proponentes da categoria ARTISTA, que contempla autores de obras artísticas cujo foco de pesquisa envolve estratégias de formação e mediação, visando promover o pensamento crítico e as relações entre indivíduo e seu meio social. São eles:

Bruno Moreschi (SP), com o trabalho A História da _rte, que reúne dados quantitativos e qualitativos sobre 2.443 artistas encontrados em 11 livros utilizados em cursos de graduação de artes visuais no Brasil.

Cecília Andrade (CE), com o trabalho Excursão Pajeú, exposição na qual público é convidado a procurar e refletir sobre o riacho Pajeú, rio em desaparição, na cidade de Fortaleza.

Sue Nhamandu (SP), com o trabalho Ryzoma Pornoklasta, uma pedagogia de conscientização sobre a vitalidade do sistema patriarcal, baseada em exercícios eróticos que explicitam os mitos das diferenças entre masculino e feminino.

À tarde, após o intervalo para almoço, teremos três proponentes da categoria FORMADOR, que contempla professores/ agenciadores/ formadores ou instituições responsáveis por projetos comprometidos com uma pedagogia para as artes, assim como com o empreendimento de modelos inovadores de educação da arte ou pela arte. São eles: 

Instituto Tomie Ohtake e Centre Pompidou (SP), com o trabalho Alucinações Parciais: exposição-escola com obras-primas modernas do Brasil e do Centre Pompidou, mostra coletiva que traz educação como plataforma central para criação de relações entre públicos e obras.

Maya Inbar (RJ), com o trabalho Programa de Arte Ambiental, em que a professora do Colégio de Aplicação da UFRJ propõe debates e atividades sobre natureza, agrofloresta e diversidade.

Tales Bedeschi (MG), com o trabalho Arte indígena na escola não indígena, que desenvolve abordagens metodológicas para estudar o universo epistemológico, cultural e artístico de povos indígenas na escola.

O Prêmio seLecT de Arte e Educação é uma iniciativa da revista seLecT, a fim de contribuir para a difusão de novos modelos de educação em favor da formação intelectual e cultural do cidadão.

O Prêmio conta com incentivo do Ministério da Cultura, por meio da Lei de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), e só é possível graças ao patrocínio do Banco do Brasil e da Galeria Almeida e Dale. Agradecemos também à parceria da Galeria A Gentil Carioca, que este ano associa ao Prêmio seLecT o seu projeto Camisa Educação; e aos nossos colaboradores, Luana Fortes, jornalista da revista seLecT, Ana Diniz e Bê Machado, da Editora Três; e nosso júri de seleção e premiação formado por Giselle Beiguelman, Marcio Harum, Cayo Honorato, Mario Ramiro e Ana Avelar. A todos, muito obrigada.

Finalistas e membros do júri de premiação do 2º Prêmio seLecT de Arte e Educação

 

Fala de Paula Alzugaray, diretora da revista seLecT, que abriu as apresentações dos finalistas na tarde de 11/9 no CCBB-DF.

Eu gostaria de abrir os trabalhos desta tarde do 2º Seminário seLecT de Arte e Educação com uma história contada por Renato Janine Ribeiro, professor titular de ética e filosofia política da Universidade de São Paulo. Esta história está contada no livro “A pátria educadora em colapso” (lançado pela editora Três Estrelas no início deste ano de 2018).

A EDUCAÇÃO PRECISA SER CRIATIVA

No filme O Diretor de harmonia (2014), de Luiz Bolognesi e Lais Bodanzky, o educador Tião Rocha conta que nos anos 1980 foi nomeado pró-reitor de uma universidade mineira e no mesmo dia teve uma reunião com um secretário de estado. Discutia-se crise, segurança, disciplina. Tião pediu a palavra e disse:

– No Brasil há uma escola que nunca teve crise, evasão, dependência, segunda época, violência, quebra-quebra.

– Essa escola não existe, professor!, disseram

– É essa escola que temos de criar. Mas ela já existe.

– Qual?

– É a escola de samba. Você já ouviu falar de crise em escola de samba, em bomba, repetência, evasão? Alguém ja tomou bomba em tamborim?

Aquilo criou um mal-estar, segundo o educador. Então uma senhora, assessora do secretário, disse:

– Professor, isso aqui é uma reunião séria!

Tião respondeu:

– A senhora não conhece nada de escola de samba. Na sua escola não há um encarregado da disciplina?

– Claro.

– Pois a escola de samba não tem um encarregado da disciplina. Escola de samba tem diretor de harmonia!

“Fechou o tempo”, contou Tião, que comentou em seguida: a educação brasileira tem muito a aprender com a cultura brasileira. Joãozinho Trinta, lembrou ele, transformou uma cidade a partir de uma escola de samba. Nilópolis é em grande parte produto da Beija-Flor, escola que o carnavalesco dirigiu durante muito tempo. E que tem diretor de harmnia.

Tião Rocha diz que foi demitido no mesmo dia de sua posse e que a escola de seus sonhos – e que deveria ser a do sonho de todos – é a que faz o aluno desejar frequentá-la também aos sábados e aos domingos.

Paula Alzugaray e Giselle Beiguelman anunciam as vencedoras do 2º Prêmio seLecT de Arte e Educação: Sue Nhamandu e Maya Inbar

Anúncio de vencedores e statement do júri de premiação, composto por Ana Avelar, Cayo Honorato, Mario Ramiro e presidido por Giselle Beiguelman

Fazer um Prêmio dedicado à arte e educação no Brasil de hoje é, em si, um ato de resistência. Não existem áreas mais abandonadas, atacadas e vilipendiadas que essas no nosso momento histórico.

Na contramão do processo de desmonte das políticas públicas de fomento ao ensino, à pesquisa, e à criação, os seis finalistas desta segunda edição do Prêmio seLecT de arte e educação são a expressão da relevância desse debate.

Atuando como artistas e como formadores, seus projetos contemplam a urgência de discutirmos pedagogias para dar conta das demandas da lei 11645, que tornou “obrigatório  o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena, no âmbito de todo o currículo escolar”, e dos apagamentos a que foram submetidas suas histórias e saberes.

Trazem novos aportes às práticas voltadas à educação ambiental, sexual e patrimonial e revelam novas dimensões das ambivalências das definições de gênero e das políticas do corpo no espaço. Revelam, ainda, a potência do ensino público, instância a que estão ligadas a maior parte dos projetos finalistas, e a determinação dos artistas de e professores.

Em suas práticas, assumem o desafio de conceber mundos onde a questão principal é “Como fazer COM e não fazer PARA ou POR?”. O que unifica a multiplicidade das propostas dos finalistas é a aposta na construção de processos coletivos, nos quais a escuta do outro, o respeito e a compreensão das diferenças são centrais.

Sue Nhamandu e Maya Inbar, as vencedoras do 2º Prêmio seLecT de Arte e Educação nas categorias Artista e Formador, respectivamente

Eles e elas propõem tecnologias sociais para desvendar as formas de produção social do espaço urbano, como faz Cecilia Andrade, de Fortaleza, com Excursão Pajeú, e para desconstruir uma historiografia hegemônica, que ocultou as mulheres e suprimiu as artistas negras da história da arte, como fez Bruno Moreschi e sua equipe multidisciplinar, no seu meticuloso a historia da _rte [um projeto que se tornou referência para as pesquisas na área, como atestaram as diversas citações feitas ao seu banco de dados por outros finalistas].

Chamam nossa atenção para necessidade de romper com os cânones estabelecidos, como Sue Nhamandu, que propõe, em experimentos performáticos, a descolonização do corpo feminino, e o Insituto Tomie Ohtake, que apresenta, a partir da exposição Alucinações Parciais, uma proposta que implode os limites entre espaço expositivo e educativo.

Enfrentando os desafios da contemporaneidade, Tales Bedeschi Faria, de Belo Horizonte, e Maya Inbar, do Rio de Janeiro, discutem, respectivamente, como elaborar uma pedagogia indígena para não-indígenas e o Programa de Arte Ambiental. Tales desenvolve uma metodologia baseada na participação e contato e com as populações indígenas. Já Maya Inbar, procura articular na prática da educação ambiental, uma visão transdisciplinar que torna indissociável a criação artística do processo de conhecimento da natureza e de nós mesmos.

Destinado a projetos integralmente realizados até a data de seleção dos finalistas pelo Júri, o Prêmio não se é voltado ao fomento de projetos a serem desenvolvidos.

Para a premiação, o Júri do 2º Prêmio seLecT de Arte e Educação destacou os projetos que atestaram potência para formular e experimentar metodologias pedagógicas inovadoras,  sintonizadas com as demandas do País e da contemporaneidade.

Na categoria artista, premiamos Sue Nhamandu, com um projeto que propôs um enfoque radical para problematizar as ambivalências das noções de gênero, a partir da educação sexual, pensando a prática pedagógica como elemento fundamental de constituição da subjetividade.

Na categoria formador, voltamos nossa atenção para a escola como um agente de transformação social a partir do projeto de Maya Inbar. Por ser o centro irradiador de uma cultura pautada pelo reconhecimento da diversidade, essa escola plural expande as noções de consciência ecológica. Abre-se para possibilidade de uma prática transdisciplinar e de novas pedagogias que privilegiam o prazer do processo de aprendizagem.

Por fim, oferecemos a Bruno Moreschi a oportunidade de desenvolver uma Camisa Educação, projeto da nova parceira do Prêmio seLecT, a galeria A Gentil Carioca. A camiseta será lançada em fevereiro de 2019, na exposição Abre Alas.

Os finalistas foram presenteados com exemplares da Camisa Educação
Do letramento digital à pedagogia travesti

Do letramento digital à pedagogia travesti

2º Prêmio seLecT de Arte e Educação anuncia os 20 indicados desta edição

Giselle Beiguelman

Iniciativas independentes, práticas colaborativas, valorização das artes do corpo e a demanda por uma revisão dos eixos curriculares, incorporando novas perspectivas historiográficas e os saberes da cultura popular, marcaram a 2ª edição do Prêmio seLecT de Arte e Educação.

Destaca-se também, no conjunto de projetos inscritos, o aumento de propostas de educação ambiental, novas formas de problematizar o patrimônio histórico, iniciativas voltadas ao letramento digital e ações que radicalizam a compreensão das ideologias de gênero.

Os 20 projetos indicados ao Prêmio contemplam a diversidade das propostas inscritas, notabilizando-se por sua capacidade de transcender os modelos de educação formal, contemplando o público não como grupo de espectadores ou receptores de conteúdos, mas como atores de processos sistêmicos e abertos.

Indicados ao  2º Prêmio seLecT de Arte e Educação:

Categoria Artista

  1. A História da _rte, de Bruno Moreschi (São Paulo, SP)
  2. AEANFDC – Ambiente de Empretecimento da Arte Nacional a Favor da Descolonização Cultural, de Igi Ayedun (São Paulo, SP)
  3. Almofadas Pedagógicas, de Traplev (Recife, PE)
  4. Caderno de Campo, de Vânia Medeiros, (São Paulo, SP)
  5. CHÃO (Laboratório de Experiências Performáticas para Crianças do Meio Rural), de Ieltxu Ortueta (Cunha, SP)
  6. Erosão Diferencial – O museu como ateliê, de Marcelo Moscheta (Campinas, SP)
  7. Excursão Pajeú, de Cecília Andrade (Fortaleza, CE)
  8. Laçaço, de Regina Johas (Natal, RN)
  9. Lanchonete <> Lanchonete, de Thelma Vilas Boas (Rio de Janeiro, RJ)
  10. Ryzoma Pornoklasta, de Sue Nhamandu (São Paulo, SP)

Categoria Formador

  1. A Colaboradora, de Marilia Guarita (Santos, SP)
  2. Alucinações Parciais: exposição-escola com obras-primas modernas do Brasil e do Centre Pompidou, de Instituto Tomie Ohtake e Centre Pompidou (São Paulo, SP)
  3. Arte indígena na escola não indígena, de Tales Bedeschi Faria (Belo Horizonte, MG)
  4. Ateliê 397, de Thais Rivitti (São Paulo, SP)
  5. Cápsula, de Gabriel Menotti (Vitória, ES)
  6. Explode! 2017-2018, de João Simões e Cláudio Bueno (São Paulo, SP)
  7. II Bienal de Artes Ouvidor 63, de Moara Brasil Xavier da Silva (São Paulo, SP)
  8. MultiAteliê_arte e tecnologia, de Carmem Lúcia Altomar Mattos (Juiz de Fora, MG)
  9. No Ritmo da Aula, de Jodson do Nascimento Silva (Joul) (Diadema, SP)
  10. Programa de Arte Ambiental, de Maya Inbar (Rio de Janeiro, RJ)
Da diversidade às adversidades

Da diversidade às adversidades

Membros do júri falam sobre particularidades das inscrições e chegam a 60 pré-selecionados
Confira a lista!

Paula Alzugaray e Giselle Beiguelman

Entre os mais de 500 inscritos na primeira edição do Prêmio seLecT de Arte e Educação tivemos boas surpresas e a confirmação de tristes realidades.

Entre as boas surpresas destaca-se o arco de abrangência das inscrições tanto do ponto de vista territorial, de Norte a Sul do Brasil, como temático.

Na categoria Artista, o Prêmio atingiu 44 cidades de 21 estados brasileiros. Na categoria Formador, constata-se uma diversidade ainda maior: 104 cidades de 18 estados. Escapando à previsibilidade das capitais e dos grandes centros urbanos, a edição inaugural contou com uma significativa presença de projetos de artistas vindos de cidades como Tangará da Serra (MT); Ipatinga (MG); São Gonçalo (RJ), Vassouras (RJ); Marechal Rondon (PR); Orleans (SC), Criciúma (SC), Itajaí (SC); Cabedelos (PB); Petrolina (PE), Lagoa dos Gatos (PE), Itambé (PE) e Aparecida de Goiania (DF), além de vários projetos do interior do Paraná e Manaus (AM).

Do ponto de vista temático, nota-se uma emergente e bem-vinda presença de projetos desenvolvidos, nos últimos dois anos, a partir da demanda e da necessidade do debate das questões das relações raciais e de gênero, a fim de dar legitimidade às Leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornaram obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena no país.

É notável, também, o crescimento de ações e projetos criados em comunidades e nas periferias, fora dos circuitos tradicionais de arte e das instituições educacionais, que trazem abordagens artísticas inovadoras e outras potências para o campo da educação.

A presença de projetos pedagógicos integradores, relacionando a cidade, o meio ambiente, o patrimônio histórico e cultural e projetos voltados para a integração de minorias e deficientes também foram recorrentes.

Percebe-se, ainda, que o audiovisual e as artes do corpo estão hoje incorporadas às metodologias pedagógicas e difundidas entre escolas municipais e estaduais brasileiras.

A multiplicidade institucional das inscrições é outro ponto a destacar. Na categoria Formador, recebemos projetos provenientes de pequenas escolas municipais do interior do Brasil, de núcleos de pesquisa de importantes universidades do país, como a USP e UFF, e chegando até instituições de arte brasileiras internacionalmente reconhecidas, como o Instituto Inhotim e a Fundação Bienal de São Paulo.

Nas duas categorias, apareceram projetos de diversas escalas, voltadas para a mobilização de comunidades inteiras ou de uma sala de aula. Na sua diversidade, mostrando “muita vontade de conexão”, como aponta o educador Paulo Portella, integrante do júri de seleção.

Chamou a atenção, também, que há uma tendência à formação de redes e de equipes multidisciplinares para projetos colaborativos e de co-autoria, na interseção entre diferentes áreas do saber, fomentando múltiplos pontos de vista.

Entre as citações mais constantes, sobre o trabalho em arte e educação, a abordagem triangular (fazer, ler e contextualizar) de Ana Mae Barbosa e textos do filósofo francês Jacques Rancière são as referências centrais.

Triste realidade

Em muitos casos, o escopo dos projetos evidencia que a arte ainda é vista como forma de diversão ou desenvolvimento de auto-estima.

Salta à vista a coragem e a quantidade de iniciativas pessoais em ambientes de descaso. Elas evidenciam a dimensão de desvalorização da disciplina de artes pelo Estado e a carência de políticas públicas nas áreas de arte e educação.

 

Confira a lista dos proponentes pré-selecionados: